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    <title>Audiolivros em português</title>
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    <description>Audiolivros em português de obras no domínio público. Os primeiros episódios incluem o conto “O Tesouro“ e capítulos de “A Cidade e as Serras”, ambos da autoria de Eça de Queirós.</description>
    <language>pt-pt</language>
    <copyright>© 2026 Neolivros</copyright>
    <pubDate>Tue, 24 Nov 2020 16:35:43 GMT</pubDate>
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      <title>“Contos: O Tesouro“, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>”O Tesouro” é um conto de Eça de Queirós que faz parte da colectânea póstuma ”Contos”, com primeira publicação em 1902. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</description>
      <content:encoded><![CDATA[<b>”O Tesouro”</b> é um conto de Eça de Queirós que faz parte da colectânea póstuma ”Contos”, com primeira publicação em 1902. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)]]></content:encoded>
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      <pubDate>Mon, 21 Sep 2020 15:19:00 GMT</pubDate>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo I, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Primeiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro capítulo, em audiolivro, do romance <strong>“A Cidade e as Serras”</strong> de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)!</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Thu, 22 Oct 2020 17:19:00 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Primeiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Primeiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo II, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Segundo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) </description>
      <content:encoded><![CDATA[Segundo capítulo, em audiolivro, do romance <b>“A Cidade e as Serras”</b> de <i>Eça de Queirós</i>. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 25 Oct 2020 23:19:43 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Segundo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Segundo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</itunes:summary>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo III, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Terceiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) </description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Terceiro capítulo, em audiolivro, do romance <strong>“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. <em>Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) </em></p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Tue, 03 Nov 2020 06:19:43 GMT</pubDate>
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      <itunes:subtitle>Terceiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Terceiro capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</itunes:summary>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IV (parte I), de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Quarto capítulo (parte I), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) </description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quarto capítulo (parte I)</strong>, em audiolivro, do romance <strong>“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. </p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Tue, 24 Nov 2020 16:35:43 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Quarto capítulo (parte I), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Quarto capítulo (parte I), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IV (parte II), de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Quarto capítulo (parte II), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. 

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Quarto capítulo (parte II), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. </p><p><br></p><p><strong><em>Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)</em></strong></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 29 Nov 2020 19:21:16 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Quarto capítulo (parte II), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Quarto capítulo (parte II), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo V, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Quinto capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
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      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Quinto capítulo</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>. </p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 06 Dec 2020 16:13:05 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo V, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Quinto capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Quinto capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VI, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Sexto capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Sexto capítulo</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Fri, 18 Dec 2020 11:11:47 GMT</pubDate>
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      <itunes:subtitle>Sexto capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VII, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Sétimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Sétimo capítulo</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sat, 26 Dec 2020 18:23:32 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VII, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Sétimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Sétimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte I, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Oitavo capítulo - primeira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Oitavo capítulo - primeira parte<span style="caret-color: rgb(54, 54, 54); color: rgb(54, 54, 54); font-weight: bold; display: inline"></span></strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 03 Jan 2021 20:39:41 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte I, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Oitavo capítulo - primeira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Oitavo capítulo - primeira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte II, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Oitavo capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.

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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Oitavo capítulo - segunda parte</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><br></p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p><br></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Mon, 11 Jan 2021 22:09:56 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte II, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Oitavo capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Oitavo capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte III, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Oitavo capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Oitavo capítulo - terceira parte</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 17 Jan 2021 19:10:00 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo VIII - parte III, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Oitavo capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Oitavo capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IX - parte I, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Nono capítulo - primeira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Nono capítulo - primeira parte</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 31 Jan 2021 14:47:46 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Nono capítulo - primeira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IX - parte II, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Nono capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.
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      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Nono capítulo - segunda parte</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sat, 20 Feb 2021 14:50:34 GMT</pubDate>
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      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Nono capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>Nono capítulo - segunda parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:summary>
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    </item>
    <item>
      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IX - parte III, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>&lt;p&gt;Nono capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="ql-align-center"&gt;&lt;span style="color: rgb(54, 54, 54);"&gt;TRANSCRIÇÃO&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="ql-align-center"&gt;&lt;span style="color: rgb(54, 54, 54);"&gt;—&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu&amp;nbsp;Príncipe&amp;nbsp;lentamente passava para o desejo da Acção… E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois de tanto&amp;nbsp;comentar,&amp;nbsp;o meu&amp;nbsp;Príncipe, evidentemente, aspirava a&amp;nbsp;criar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— É curioso… Nunca plantei uma árvore!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E como o Manuel descia da escada, o meu&amp;nbsp;Príncipe, que nunca acreditara inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Semear, patrão? Agora é antes colher… Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Pois sim… Mas sem ser milho nem cevada… Então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O riso do Manuel crescia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O meu&amp;nbsp;Príncipe&amp;nbsp;sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não! O empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Eh, meu Jacinto… A árvore que cresce mais depressa é o&amp;nbsp;eucalipto, o feiíssimo e ridículo&amp;nbsp;eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de&amp;nbsp;eucaliptos…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Tudo tão lento, Zé Fernandes…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Porque o seu sonho, q…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Nono capítulo - terceira parte</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong>TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong>—</strong></p><p>Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;lentamente passava para o desejo da Acção… E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.</p><p>Depois de tanto&nbsp;comentar,&nbsp;o meu&nbsp;Príncipe, evidentemente, aspirava a&nbsp;criar.</p><p>Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:</p><p>— É curioso… Nunca plantei uma árvore!</p><p>— Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!</p><p>— Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.</p><p>E como o Manuel descia da escada, o meu&nbsp;Príncipe, que nunca acreditara inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:</p><p>— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?</p><p>Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:</p><p>— Semear, patrão? Agora é antes colher… Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.</p><p>— Pois sim… Mas sem ser milho nem cevada… Então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?</p><p>O riso do Manuel crescia.</p><p>— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca…</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.</p><p>— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.</p><p>Não! O empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.</p><p>No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:</p><p>— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?</p><p>— Eh, meu Jacinto… A árvore que cresce mais depressa é o&nbsp;eucalipto, o feiíssimo e ridículo&nbsp;eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de&nbsp;eucaliptos…</p><p>— Tudo tão lento, Zé Fernandes…</p><p>Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no começo do Inverno…</p><p>— Um carvalho!… Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom para Deus, que pode esperar…&nbsp;Patiens quia æternus.&nbsp;Trinta anos! Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!</p><p>— Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto…</p><p>— Filhos! Onde os tenho eu?</p><p>— É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras agradáveis… Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.</p><p>Ele murmurou, cruzando as mãos sobre os joelhos:</p><p>— Tudo leva tanto tempo!…</p><p>E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca doçura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente da Lua, que surdia dos telhados de Tormes.</p><p>E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da quinta, ele lhe notava a solidão.</p><p>— Faltam aqui animais, Zé Fernandes!</p><p>Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de águas, agora mais ressequido por Verão de tanta secura, o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam com penúria uma relvagem pobre.</p><p>E, de repente, como magoado:</p><p>— Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos como bolas de algodão pousadas na relva!… Era lindo, hem? É fácil, não é verdade, Zé Fernandes?</p><p>— Sim… Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.</p><p>E o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água… Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que a instalação de uma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os&nbsp;Camemberts, os Bries… os&nbsp;Coulommiers… Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!</p><p>— Pois não te parece, Zé Fernandes?</p><p>— Com certeza. Tu tens, em abundância, os quatro elementos: o ar, a água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!</p><p>— Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia… Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no país uma indústria nova e rica! Ora com essa instalação, perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?</p><p>Fechei um olho, calculando:</p><p>— Eu te digo… Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.</p><p>— Como trezentos mil réis?</p><p>— Ponhamos duzentos… Tem a certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de água, e a configuração da serra alterada, e as vacas inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão, etc. Tens apenas, em cada queijo, uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinquenta réis!</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;não desanimou.</p><p>— Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao sábado, para o comermos nós ambos ao domingo!</p><p>E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior por cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.</p><p>Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia serrana, forçado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara na serra o jeito que Jacinto deixara em Paris, — e era ele que corria pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados… Enfim uma tarde desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde&nbsp;Rylant, mordomo-mor da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma queijeira perfeita.</p><p>— Pois, sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe digo que o sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos… Dezenas de contos!</p><p>E como eu aludia à fortuna do meu&nbsp;Príncipe, a quem todas essas obras tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam mais que a outros o conserto de um socalco, — o bom Silvério atirou os longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:</p><p>— Pois por isso mesmo, sr. Fernandes! Se o sr. D. Jacinto não tivesse a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para diante; e eu não o censuro pela ideia. Lograsse eu a renda de Sua Excelência, que me atirava também a uma lavoura de capricho. Mas não aqui, sr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O sr. Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor! Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira…</p><p>— Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o solar da família, e aqui começaram no século&nbsp;XIV&nbsp;os Jacintos…</p><p>O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular nobreza da casa.</p><p>— Ora! Até ficam mal ao sr. Fernandes essas ideias, neste século da liberdade… Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em República? Leia o «Século», sr. Fernandes!, leia o «Século», e verá! E depois eu sempre quero ver o sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!… Olhe, até mesmo por amor da saúde o sr. D. Jacinto, que é fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor, em Montemor é que Sua Excelência estava bem. E o sr. Fernandes, tão amigo dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o levasse para Montemor.</p><p>Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, donde brotara a sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.</p><p>E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, — dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que sempre penetrava neles como numa festa ou numa glória.</p><p>Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:</p><p>— Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!</p><p>Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das trinta e nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado de um tempo devido aos fortes gozos da terra.</p><p>Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da alameda de plátanos, e diante de nós se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa findava, e penetrava na Natureza com a reverente lentidão de quem penetra num templo. E repetidamente sustentava ser «contrário à Estética, à Filosofia e à Religião andar depressa através dos campos». De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas. Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio domingo, depois da missa, no cabeço, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande árvore, — só porque em torno havia quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores escondidas.</p><p>Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça — o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;rugia, com a indignação de um poeta que descobre um merceeiro bocejando sobre&nbsp;Shakespeare&nbsp;ou Musset. Eu ria.</p><p>— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é&nbsp;linda, mas se a terra é&nbsp;boa. Olha o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E não diz: «Contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»</p><p>— Pudera! — exclamava o meu&nbsp;Príncipe. — Um livro escrito por judeus, por ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento, nos trinta mil réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil réis ao corpo. E na vida só a alma importa.</p><p>Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de sol de Junho, que depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.</p><p>Mas realmente a alegre actividade do meu&nbsp;Príncipe&nbsp;não cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto, com o espírito acordado, — ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade — tomava com delícia o&nbsp;seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo&nbsp;ambula,&nbsp;caminha! — também certamente lhe gritara&nbsp;et lege,&nbsp;e lê. E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de&nbsp;ler um livro.&nbsp;Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do Severo na venda do Torto), ele findava o «D. Quixote», e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;mergulhara na «Odisseia», — e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado, no meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero!</p><p>— Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter lido Homero?…</p><p>— Outras leituras, mais urgentes… o «Figaro», Georges Ohnet…</p><p>— Tu leste a «Ilíada»?</p><p>— Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a «llíada».</p><p>Os olhos do meu&nbsp;Príncipe&nbsp;fuzilavam.</p><p>— Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a «Ilíada»?</p><p>— Não.</p><p>— Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.</p><p>— Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a «Odisseia»!</p><p>Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da «Odisseia» — resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas, — exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam… Embalado pela recitação grave e monótona do meu&nbsp;Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava… E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: «Sublime!» E sempre, nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos&nbsp;príncipes, ou reclamava presentes devidos ao hóspede, ou&nbsp;surripiava&nbsp;astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico… E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca…</p><p>Depois da sesta o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;de novo se soltava para os campos. E a essa hora, sempre mais activo, voltava com ardor aos «seus planos», a essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de dálias. A água das regas desceria por lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;desenhara o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram, — um coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e o sobrolho trágico.</p><p>Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco e todo fremente de asas — não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.</p><p>Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência reboluda e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu&nbsp;Príncipe, como galeras vistosas em rochas ou em lodo.</p><p>Não convinha bulir em nada (clamava o Silvério) antes das colheitas e da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque lá ensina o ditado:</p><p>Em Janeiro&nbsp;—&nbsp;mete obreiro</p><p>Mês meante&nbsp;—&nbsp;que não ante.</p><p>E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu&nbsp;Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até à rude simplicidade daquelas almas naturais — mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros: «Tenha Vossa Excelência muito boas tardes… Criado de Vossa Excelência!»</p><p>Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.</p><p>— Então, isso vai andando?… Ora ainda bem!… Este bocado de torrão aqui é rico… O talude ali adiante está precisando conserto…</p><p>E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse a sua encarnação em «homem do campo», deixando de ser uma mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não cruzava no caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu&nbsp;Príncipe&nbsp;era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da sua quinta.</p><p>— Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos Albuquerques.</p><p>E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto casarão, eram fáceis e curtas. O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;era então uma alma que se simplificava — e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café, estendido numa cadeira, sentindo, através das janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.</p><p>As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo, a crónica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou de águas. Também por vezes nos enfronhávamos com aferro numa partida de gamão, sobre um belo tabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silvério. Mas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 07 Mar 2021 18:45:43 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo IX - parte III, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>&lt;p&gt;Nono capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
      <itunes:summary>&lt;p&gt;Nono capítulo - terceira parte, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="ql-align-center"&gt;&lt;span style="color: rgb(54, 54, 54);"&gt;TRANSCRIÇÃO&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="ql-align-center"&gt;&lt;span style="color: rgb(54, 54, 54);"&gt;—&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu&amp;nbsp;Príncipe&amp;nbsp;lentamente passava para o desejo da Acção… E de uma acção directa e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois de tanto&amp;nbsp;comentar,&amp;nbsp;o meu&amp;nbsp;Príncipe, evidentemente, aspirava a&amp;nbsp;criar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto o Manuel Hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— É curioso… Nunca plantei uma árvore!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Pois é um dos três grandes actos, sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se presta a um semelhante!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Sim… Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é um belo serviço! Mas nunca semeei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E como o Manuel descia da escada, o meu&amp;nbsp;Príncipe, que nunca acreditara inteiramente — pobre homem! — no meu saber agrícola, imediatamente reclamou o parecer daquela autoridade:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através de um lento riso, entre respeitoso e divertido:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Semear, patrão? Agora é antes colher… Olhe que já se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patrão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Pois sim… Mas sem ser milho nem cevada… Então ali no pomar, rente do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O riso do Manuel crescia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em terra muito fresca…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O meu&amp;nbsp;Príncipe&amp;nbsp;sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não! O empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da terra. E agora sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas mãos paternais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Oh Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Eh, meu Jacinto… A árvore que cresce mais depressa é o&amp;nbsp;eucalipto, o feiíssimo e ridículo&amp;nbsp;eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de&amp;nbsp;eucaliptos…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;— Tudo tão lento, Zé Fernandes…&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Porque o seu sonho, q…</itunes:summary>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo X, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Décimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
Numa dessas manhãs — justamente na véspera do meu regresso a Guiães —, o tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a Natureza, desde os pássaros aos regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.
Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o aterrar:
— Sudoeste! Gralhas a grasnar por todos esses soutos… Temos muita água, sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!
O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:
— Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeável… Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
Mas como o Melchior lhe afiançara que «a chuvinha só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.
Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:
— Apre! que ferocidade!
Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.
— Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?
Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
— Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de Vossa Excelência ver no Inverno, se Vossa Excelência se aguentar por cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!
E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara …</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Décimo capítulo</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p>Numa dessas manhãs — justamente na véspera do meu regresso a Guiães —, o tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a Natureza, desde os pássaros aos regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.</p><p>Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o aterrar:</p><p>— Sudoeste! Gralhas a grasnar por todos esses soutos… Temos muita água, sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é que se vai saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:</p><p>— Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeável… Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.</p><p>Mas como o Melchior lhe afiançara que «a chuvinha só viria para a tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.</p><p>Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu&nbsp;Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:</p><p>— Apre! que ferocidade!</p><p>Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.</p><p>— Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?</p><p>Imediatamente o Silvério aterrou o meu&nbsp;Príncipe:</p><p>— Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de Vossa Excelência ver no Inverno, se Vossa Excelência se aguentar por cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!</p><p>E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.</p><p>— Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira… Mas a mulher tem estado doente, já há dias… E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: «Nada, o seguro morreu de velho!» Meti para o alpendre… E não passara um credo quando lobriguei a Vossa Excelência… Coisa assim!… E o sr. D. Jacinto é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.</p><p>Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de um céu ainda negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.</p><p>Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus prognósticos:</p><p>— Pois, não senhor… Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.</p><p>O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;se sentara, enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e retém olhos e almas.</p><p>— Ó sr. Silvério, — murmurou lentamente o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;— que é que o senhor esteve aí a dizer de bexigas?</p><p>O procurador voltou a face surpreendido:</p><p>— Eu, Excelentíssimo Senhor?… Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser, pode ser… Não imagine Vossa Excelência que faltam por cá doenças. O ar é bom. Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às vezes, se Vossa Excelência me dá licença, vai por aí muita maleita.</p><p>— Mas não há médico, não há botica?</p><p>O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem providas.</p><p>— Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido… o Firmino, hem, sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o dr. Avelino, daqui a légua e meia, nas Bolsas. Mas já Vossa Excelência vê, esta gentinha é pobre!… Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!</p><p>E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as duas&nbsp;espessas&nbsp;cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes húmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!</p><p>E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.</p><p>— Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?</p><p>Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:</p><p>— Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?</p><p>Foi o Silvério que informou respeitosamente:</p><p>— É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste… Filharada não lhe falta.*</p><p>— Mas este pequeno também parece doente! — exclamou Jacinto. — Coitadito, tão amarelo… Tu também estás doente?</p><p>O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:</p><p>— Nada, este é sãozinho… Coitado, assim amarelito e enfezadito porque… Que quer Vossa Excelência? Mal comido, muita miséria… Quando há o bocadito de pão aquilo é para o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha.</p><p>Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.</p><p>— Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome?</p><p>Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu&nbsp;Príncipe:</p><p>— Está claro que há fome, homem! Tu imaginavas que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria… Em toda a parte há pobres, mesmo na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro…</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;teve um gesto, de aflita impaciência:</p><p>— Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha quinta, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome, e criancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.</p><p>O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra:</p><p>— Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros que são muito pobrinhos — quase todos. Isso vai por aí uma miséria, que se não fosse alguma ajuda que se lhes dá, nem eu sei… Este Esgueira, com o rancho de filhos, é uma desgraça… Havia Vossa Excelência de ver as casitas em que eles vivem… São chiqueiros. A do Esgueira, acolá, ao pé da figueira.</p><p>— Vamos ver essa! — atalhou Jacinto, com uma decisão exaltada.</p><p>E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caía, mais leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar de um&nbsp;precipício.</p><p>— Não! Vossa Excelência lá na casa do Esgueira não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e o seguro morreu de velho!</p><p>Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:</p><p>— Obrigado pelo seu cuidado, Silvério. Abra o guarda-chuva, e marche!</p><p>Então o procurador vergou os ombros e, como Sua Excelência mandava, abriu com estrondo o imenso guarda-sol, abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado. Eu segui pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades! Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.</p><p>Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, ali acumulado trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e vinhas nos olmos, e sombras e charcos, que tornavam deliciosa, para uma écloga, aquela morada da Fome, Doença e Tristeza.</p><p>Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a porta, chamando:</p><p>— Eh! tia Maria… Ó rapariga!</p><p>E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados que se espantaram para nós, serenamente.</p><p>— Então como vai a tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores…</p><p>Ela abria, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e toda arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:</p><p>— Ora, coitada, como há-de ir? Malzinha, malzinha.</p><p>E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre abafos, amodorrado e lento, a mãe retomou a desconsolada queixa:</p><p>— Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!… Ai Senhor!</p><p>O Silvério, sem mesmo se abeirar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma vaga consolação:</p><p>— Não há-de ser nada, tia Maria!… Isso foi friagem! Foi friagem! — E, sobre o ombro de Jacinto, encolhendo ele os ombros: — Já Vossa Excelência vê… Muita miséria! Até chove dentro.</p><p>E, no bocado de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida reluzia, da chuva caída através da telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra de porcaria escura parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, cacos, restos, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.</p><p>Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou simplesmente:</p><p>— Está bem… está bem…</p><p>E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o Silvério decerto revelava à rapariga a presença augusta do «fidalgo», porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolente:</p><p>— Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!</p><p>Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos trémulos a torturar o bigode, e murmurava:</p><p>— É horrível, Zé Fernandes, é horrível.</p><p>Ao lado o vozeirão do Silvério trovejou:</p><p>— Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!</p><p>Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago «Está bem… está bem…» Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar das nossas pessoas. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:</p><p>— Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!…</p><p>— E nós vamos almoçar — lembrei eu olhando o relógio. — O dia ainda vai estar lindo.</p><p>Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as varria, despejadas e vazias, para um canto escuso dos céus.</p><p>Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura que bebera largamente reluzia consolada.</p><p>Bruscamente, ao sairmos da estreita vereda, para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:</p><p>— Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.</p><p>O procurador deu um jeito aos ombros, com um vago «Eh! eh!» de obediência e dúvida.</p><p>— Antes de tudo — continuava Jacinto — mande já hoje chamar esse dr. Avelino para aquela pobre mulher… E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, cada dia; até que ela melhore… Escute! E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro à pobre gente, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze mil réis… Bastará?</p><p>O procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tostões bastavam… Nem era bom acostumar assim, aquela gente a tanta franqueza. Depois todos queriam, todos pedinchavam…</p><p>— Mas é que todos hão-de ter — disse Jacinto simplesmente.</p><p>— Vossa Excelência manda! — murmurou o Silvério.</p><p>Vergara os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:</p><p>— Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!</p><p>Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca imensa do guarda-sol vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas, cautelosamente, no seu indominável medo do Silvério:</p><p>— E as casas também… Aquela casa é um covil!… Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente… E naturalmente, as dos outros caseiros são covis iguais… Era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta…</p><p>— A todos?… — O Silvério gaguejava, emudeceu.</p><p>E Jacinto balbuciava aterrado:</p><p>— A todos, enfim, quero dizer… Quantos serão eles?</p><p>Silvério atirou um gesto enorme:</p><p>— São vinte e tantos… Vinte e três! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete…</p><p>Então Jacinto emudeceu, como reconhecendo a vastidão do número. Mas desejou saber por quanto ficaria cada casa!… Oh! uma casa simples, mas limpa, confortável, como aquela que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Excelência saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:</p><p>— Duzentos mil réis, Excelentíssimo Senhor! E é para mais que não para menos!</p><p>Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:</p><p>— Bem, meu amigo… Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.</p><p>Então o Silvério teve um brado de terror:</p><p>— Mas então, Excelentíssimo Senhor, é uma revolução.</p><p>E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o mundo desabar, — o bom Silvério encavacou:</p><p>— Ah! Vossas Excelências riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela chalaça!… Vai aqui uma bela risota.</p><p>E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade naquela extravagância magnífica:</p><p>— Enfim, Vossa Excelência é quem manda!</p><p>— Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.</p><p>Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua Excelência para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a consertar a trave da mó. Era um instante, e já estava às ordens de Sua Excelência.</p><p>Meteu logo por um atalho, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita à pobreza da serra.</p><p>— Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto — disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.</p><p>— Que miséria, Zé Fernandes, eu nem sonhava… Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível…</p><p>Estávamos entrando na alameda de faias. Um raio de sol, saindo de entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e lustrosas um frémito alegre e doce.</p><p>— Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?… Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio… Não, não era Santo Ambrósio. Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga… É talvez a tua preparação para S. Jacinto.</p><p>Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:</p><p>— É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é uma chaga que eu posso curar!</p><p>Não desiludi o meu&nbsp;Príncipe. E ambos subimos bem alegremente a escadaria do casarão.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Wed, 31 Mar 2021 14:04:16 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo X, de Eça de Queirós</itunes:title>
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      <itunes:subtitle>Décimo capítulo, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XI, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulo XI, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
XI

No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde então, tantas vezes trotei por aquelas três léguas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a minha égua, quando a desviava dessa estrada familiar, conduzindo-a a uma cavalariça familiar (onde ela privava com o garrano do Melchior), relinchava de pura saudade. Até a tia Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu sempre corria, daquele Príncipe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um dia com um grão de sal e de ironia, o único que cabia num coração todo cheio de inocência, ela me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:

— Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacinto… Traze cá essa maravilha, menino!

Eu rira:

— Sossegue, tia Vicência, que o trago agora, para o dia dos meus anos, a jantar… Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores e até talvez se arranje uma noiva para o Jacinto.

E eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este «natalício». E de resto, convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra… Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares da serra, porque Tormes tinha uma solidão muito monástica, e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca áspera como a das árvores, na solidão.

— E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história… Mas, caramba, há aqui falta de mulheres!

Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:

— Com efeito, há aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras aí das casas dos arredores… Não sei, mas estou pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela — mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às flores são sempre as mulheres das cortes, das capitais, onde invariavelmente, desde Hesíodo e desde Horácio, se rendem os poetas… E evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve… Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.

— Eu te digo… A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotónio, com efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da Quinta da Loja, também não tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, porque é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e nem é nutritivo.

— Não! O espinafre, legume purgativo.

— Temos também a D. Beatriz Veloso… Essa é bonita… Mas, menino, que horrivelmente bem-falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo. E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala em D. Maria, em peças de sentimento. Tu nunca viste o Teatro de D. Maria. Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. «Vossa Excelência, Senhor Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me disse esta, a desavergonhada!

— E tu?

— Eu! Arregalei os olhos… «Oh, Lamartine!» Mas, coitada, é uma excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas do João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e u…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulo XI</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p class="ql-align-center"><strong>XI</strong></p><p><br></p><p>No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde então, tantas vezes trotei por aquelas três léguas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a minha égua, quando a desviava dessa estrada familiar, conduzindo-a a uma cavalariça familiar (onde ela privava com o garrano do Melchior), relinchava de pura saudade. Até a tia Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu sempre corria, daquele Príncipe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um dia com um grão de sal e de ironia, o único que cabia num coração todo cheio de inocência, ela me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:</p><p><br></p><p>— Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacinto… Traze cá essa maravilha, menino!</p><p><br></p><p>Eu rira:</p><p><br></p><p>— Sossegue, tia Vicência, que o trago agora, para o dia dos meus anos, a jantar… Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores e até talvez se arranje uma noiva para o Jacinto.</p><p><br></p><p>E eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este «natalício». E de resto, convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra… Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares da serra, porque Tormes tinha uma solidão muito monástica, e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca áspera como a das árvores, na solidão.</p><p><br></p><p>— E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história… Mas, caramba, há aqui falta de mulheres!</p><p><br></p><p>Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:</p><p><br></p><p>— Com efeito, há aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras aí das casas dos arredores… Não sei, mas estou pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela — mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às flores são sempre as mulheres das cortes, das capitais, onde invariavelmente, desde Hesíodo e desde Horácio, se rendem os poetas… E evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve… Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.</p><p><br></p><p>— Eu te digo… A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotónio, com efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da Quinta da Loja, também não tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, porque é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e nem é nutritivo.</p><p><br></p><p>— Não! O espinafre, legume purgativo.</p><p><br></p><p>— Temos também a D. Beatriz Veloso… Essa é bonita… Mas, menino, que horrivelmente bem-falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo. E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala em D. Maria, em peças de sentimento. Tu nunca viste o Teatro de D. Maria. Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. «Vossa Excelência, Senhor Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me disse esta, a desavergonhada!</p><p><br></p><p>— E tu?</p><p><br></p><p>— Eu! Arregalei os olhos… «Oh, Lamartine!» Mas, coitada, é uma excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas do João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples… A tia Vicência morre por elas. Depois há a mulher do dr. Alípio, que é uma beleza. Oh! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da Civilização… Além de uma mulher muito séria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo… E quem… mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo… Borda na perfeição, faz doces como uma freira do Antigo Regime… Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu… Agora não me lembro mais. Mas falta a Flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.</p><p><br></p><p>— E tu, primo Zé, como tens tu resistido?</p><p><br></p><p>— Somos como irmãos, criados de pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu… A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela era a única irmã da tia Vicência, e morreu muito nova. A Joaninha, quase desde o berço que se criou em nossa casa, em Guiães. O pai é bom homem, o tio Adrião. Erudito, antiquário, coleccionador… Colecciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivelas… Tem uma colecção curiosa. Ele há muito que deseja vir a Tormes, para te visitar… Mas, coitado, sofre da bexiga, não pode montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva aqui é impossível para carruagens…</p><p><br></p><p>O meu Príncipe espreguiçou longamente os braços estendido pela cadeira, sob a cheirosa sombra:</p><p><br></p><p>— Não, está claro, eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicência… Desejo conhecer os meus vizinhos da serra. Mas mais tarde, quando sossegar… Agora ando todo ocupado com o meu povo.</p><p><br></p><p>E com efeito! Jacinto agora era como um rei fundador de um reino, e grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se consertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruírem com uma largueza cómoda. Pelos caminhos agora constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais.</p><p><br></p><p>Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia agora um desusado movimento, de vidraceiros, pedreiros e carpinteiros, todos contratados para as obras — e o Pedro, com as mangas da camisa cada vez mais arregaçadas, por trás do balcão, não cessava de encher os decilitros com uma vasta infusa.</p><p><br></p><p>Jacinto, que agora tinha dois cavalos, todas as manhãs cedo percorria as obras, com amor. E eu, inquieto, sentia outra vez latejar e irromper no meu Príncipe o seu velho, maníaco furor de acumular Civilização! O plano primitivo das obras era incessantemente alargado, embelezado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da serra, decidira pôr vidraças, apesar de o mestre de obras lhe dizer honradamente, que depois de habitadas um mês, não haveria casa com um só vidro. Para substituir as traves clássicas queria estucar os tectos — e eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do bom senso, para não dotar cada casa com campainhas eléctricas. Não me espantei mesmo, quando ele uma manhã me declarou que aquela porcaria da gente do campo provinha de eles não terem onde comodamente se lavar, e que por isso andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descíamos nesse momento, com os cavalos à rédea, por um córrego precipitado e escabroso; um vento leve ramalhava nas árvores, um regato saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei — mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento se riam alegremente do meu Príncipe. — E além destes confortos, a que o João, mestre de obras, com os olhos loucamente arregalados, chamava «as grandezas», Jacinto meditava o bem das almas. Já encomendara ao seu arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma escola, que ele queria erguer, naquele campo da Carriça, junto à capelinha que abrigava «os ossos». Pouco a pouco, aí também criaria uma biblioteca, com livros de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era possível ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando: «Aí vem a terrível acumulação das Noções! Eis o Livro invadindo a Serra!» Mas outras ideias de Jacinto eram tocantes, — e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia Vicência com o seu plano de uma creche, onde ele esperava ter manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atrás de uma bola. De resto, o nosso boticário de Guiães já estava apalavrado para estabelecer uma pequena farmácia em Tormes, sob a direção do seu aprendiz, um afilhado da tia Vicência, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no «Almanaque de Lembranças». E já fora oferecido o partido médico de Tormes, com um ordenado de seiscentos mil réis.</p><p><br></p><p>— Não te falta senão um teatro! — dizia eu, rindo a Jacinto.</p><p><br></p><p>— Um teatro, não. Mas tenho a ideia de uma sala, com projecções de lanterna mágica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de África, e um bocado de História.</p><p><br></p><p>Eh caramba! também eu me entusiasmei com esta ideia! — E quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquário bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa. «Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar àquela gente iletrada, vivamente, por imagens, a História Santa, a História Romana, até a História de Portugal!…» E voltado para a prima Joaninha, o tio Adrião declarou Jacinto um «homem de coração!»</p><p><br></p><p>E realmente pela serra crescia a popularidade do meu Príncipe. Naquele «Guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam… para o ver ainda, havia uma seriedade de oração, o bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianças a quem ele distribuía tostões farejavam de longe a sua passagem, — e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que, se ainda tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais idosos da freguesia não o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos desdentados: — Este é o nosso benfeitor! — Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha à porta do casebre, se o avistava no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de bênçãos! Que Deus o cubra de bênçãos!» Aos domingos, o padre José Maria (bom amigo meu e grande caçador) vinha de Sandofim, na sua égua ruça, a Tormes, para celebrar a missa na capelinha. Jacinto assistia à missa na sua tribuna, como os Jacintos de outras eras, para aqueles simples o não suporem estranho a Deus. Quase sempre então ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, lhe vinham trazer muito corados, à varanda, e que eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, e mesmo por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e merengues de Guiães às raparigas e às crianças, — e, no pátio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvério já sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas eleições que o dr. Alípio. E eu mesmo me impressionei quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas, ervanário, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso de uma cova no alto da serra, por toda a serra afirmava que aquele bom senhor era el-rei D. Sebastião, que voltara!</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sat, 24 Apr 2021 10:53:12 GMT</pubDate>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XII, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulo XII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
XII
Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da vindima, — e logo cedo, nesse domingo ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência, essa, desde madrugada, andava atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Príncipe «o pessoal» da serra, convidara para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e que podiam, pelas estradas mais seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre, no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo às dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o queria abandonar». Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.
— A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço… Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada…
A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se.
— Coitado! Será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que teu tio se dava bem.
Eu gritei simplesmente da janela para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:
— Diz à sr.ª D. Joaninha que sentimos muito… Que talvez eu lá apareça amanhã.
E voltei à janela, impaciente, porque o relógio do corredor, muito atrasado, já cantara a meia hora depois das dez e o Príncipe tardava para o almoço. Mas, mal eu me chegara à varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto, de grande chapéu de palha, na sua égua, seguido do Grilo, que se escarranchava, sobre o albardão da velha égua do Melchior, também de chapéu de palha, e abrigado sob um imenso guarda-sol verde. Atrás, um moço com uma maleta à cabeça. E eu, na alegria de avistar enfim o meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós bebemos tristemente ad manes, aos nossos mortos!
— Salve! — gritei da varanda. — Salve, domine Jacinthe!
E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o «Hino da Carta»!
— Isto por aqui também é lindo! — gritou ele de baixo. — E o teu palácio tem um soberbo ar… Por onde é a porta?
Mas eu já me precipitava para o pátio — onde Jacinto, apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e não cessara de berrar ante os perigos daquela aventura.
E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a mão trémula para a pobre égua, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis que marcos:
— Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!
E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a égua, sobre o albardão.
Subindo a escadaria ligeira, pen…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulo XII</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p class="ql-align-center"><strong>XII</strong></p><p>Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da vindima, — e logo cedo, nesse domingo ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu&nbsp;Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência, essa, desde madrugada, andava atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu&nbsp;Príncipe&nbsp;«o pessoal» da serra, convidara para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e que podiam, pelas estradas mais seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre, no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo às dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o queria abandonar». Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.</p><p>— A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço… Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada…</p><p>A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se.</p><p>— Coitado! Será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que teu tio se dava bem.</p><p>Eu gritei simplesmente da janela para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:</p><p>— Diz à sr.ª D. Joaninha que sentimos muito… Que talvez eu lá apareça amanhã.</p><p>E voltei à janela, impaciente, porque o relógio do corredor, muito atrasado, já cantara a meia hora depois das dez e o&nbsp;Príncipe&nbsp;tardava para o almoço. Mas, mal eu me chegara à varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto, de grande chapéu de palha, na sua égua, seguido do Grilo, que se escarranchava, sobre o albardão da velha égua do Melchior, também de chapéu de palha, e abrigado sob um imenso guarda-sol verde. Atrás, um moço com uma maleta à cabeça. E eu, na alegria de avistar enfim o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;trotando para a minha casa de aldeia, no dia dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós bebemos tristemente&nbsp;ad manes, aos nossos mortos!</p><p>— Salve!&nbsp;— gritei da varanda. —&nbsp;Salve,&nbsp;domine&nbsp;Jacinthe!</p><p>E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o «Hino da Carta»!</p><p>— Isto por aqui também é lindo! — gritou ele de baixo. — E o teu palácio tem um soberbo ar… Por onde é a porta?</p><p>Mas eu já me&nbsp;precipitava&nbsp;para o pátio — onde Jacinto, apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e não cessara de berrar ante os perigos daquela aventura.</p><p>E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a mão trémula para a pobre égua, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis que marcos:</p><p>— Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!</p><p>E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a égua, sobre o albardão.</p><p>Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janela ao fundo engrinaldada de roseirinhas, Jacinto louvava grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da tia Vicência, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a cómoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da Índia mais ricas, cor de canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. Então estreitámos os ossos num grande abraço, pelo natalício… «Trinta e oito, hem, Zé Fernandes?» — «Trinta e quatro, animal!» E o meu&nbsp;Príncipeabrindo logo a mala, sóbria maleta de filósofo, ofereceu os «nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na «Odisseia». Era um alfinete de gravata, de safira, uma cigarreira de aço fosco, com um florido ramo de macieira em delicado esmalte, uma faca para livros de velho lavor chinês. Eu protestava contra a prodigalidade.</p><p>— É tudo das malas de Paris… Mandei-as abrir ontem à noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança à tua tia Vicência. Não vale nada… É só por ter pertencido à princesa de&nbsp;Lamballe.</p><p>Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante.</p><p>— A tia Vicência não sabe quem é a princesa de&nbsp;Lamballe, mas fica encantada! E é uma garantia, porque ela suspeita da tua religião, como homem de Paris, da terra das impiedades… E agora, lavar, escovar, e almoçar!</p><p>A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu camarada, que ela supusera realmente um&nbsp;príncipe, arrogante, escarpado e difícil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar dele nas suas orações», duas largas rosas, mais róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com tão linda expressão. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo apetite de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele, amontoando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia:</p><p>— Até faz gosto, até faz gosto… Ora mais uma destas batatinhas recheadas…</p><p>— Com certeza, minha senhora, até duas! As minhas rações, em mesas destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua.</p><p>— Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores profanos! — exclamava eu, também radiante. — E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, louvando Deus que amadurece tal uva.</p><p>E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua creche que entusiasmava a tia Vicência, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, e o péssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado pau de canela.</p><p>Não esquecera a tia Vicência! Ali tinha o seu pauzinho de canela! — Queria que ele, em Guiães, continuasse os seus hábitos como em Tormes… E aquele pau de canela foi o símbolo de adopção do meu&nbsp;Príncipe&nbsp;como novo sobrinho da tia Vicência.</p><p>Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós fumámos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu&nbsp;Príncipe&nbsp;a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar um campo, um regueiro, um pé de vinha. Só quando a sua face se começou a opar e a empalidecer pela saciedade, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago — «muito bonito! bela terra!» — é que voltei os passos para casa, contornando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação de aspargos, e o sítio onde existira a ruína de um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnífica crónica de D. João I por Fernão Lopes, a primeira edição do «Imperador Clarimundo», uma «Henríada», com a assinatura de Voltaire, forais de el-rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei à adega, para que ele admirasse a famosa&nbsp;pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas, o meu&nbsp;Príncipetinha o ar esgazeado e lívido. Cravando nele os olhos ferozes, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que agora íamos ver a tulha». Mas então, com a mão nos rins, murmurou, humildemente, num murmúrio de criancinha:</p><p>— Não se me dava de me sentar um bocadinho.</p><p>Então tive piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse atrás de mim, para o seu quarto, onde descalçou logo as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de fresca ganga, murmurando, num abatimento profundo:</p><p>— Bela propriedade!</p><p>Consenti generosamente que ele adormecesse, — e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com as duas éguas ruças. Espreitando da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava atarefada as suas pulseiras ricas de topázios.</p><p>— Oh!, tia Vicência chegou o D. Teotónio! Felizmente vem sem a filha… Não se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem limpo, de gravata bem tesa… Vamos a ver como se passa a festa!</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Fri, 21 May 2021 08:34:55 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XII, de Eça de Queirós</itunes:title>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XIII, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulo XIII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
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“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
XIII
Ai de mim! Não se passou com brilho, nem com alegria! Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância onde eu senti as malas de Paris (abertas na véspera) — uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, tufando e presa por uma pérola negra —, já todos os convidados enchiam a sala, — o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja; todos se conservavam de pé, num magote cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras, a Beatriz Veloso, com cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado, e as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como rosinhas, ambas de branco, a mulher do dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus rústica… E foi na sala, como se realmente entrasse um príncipe, desses países do Norte onde os príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram. Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagasse: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla da floresta surge o tigre real. Debalde, nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala, — os seus apertos de mão, e sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer», foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe que subira à Serra: e as senhoras mais se conchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura surge o lobo. Eu então, já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
— O sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.
O Digno sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:
— Vossa Excelência chegou directamente de Viena?
Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:
— Mas certamente visita muitas vezes Viena…
Jacinto sorria surpreendido:
— Viena, porquê?… Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
O fidalgo murmurou um lento «Ah!» e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.
Eu então, que vigiava, lancei o dr. Alípio:
— O nosso doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.
O doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso — a tia Vicência, que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa, muito tesa e muito vermelha.
À mesa (onde os pudins, as travessas de doces de ovos, os antigos vinhos de Madeira e Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes), Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, por costume velho quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha; — e a sopa, que era de galinha com macarrão e arroz, foi comida num tão largo, pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães, à minha mesa:
— Está deliciosa,…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulo XIII</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">XIII</strong></p><p>Ai de mim! Não se passou com brilho, nem com alegria! Quando o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;entrou na sala, com uma elegância onde eu senti as malas de Paris (abertas na véspera) — uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, tufando e presa por uma pérola negra —, já todos os convidados enchiam a sala, — o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja; todos se conservavam de pé, num magote cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras, a Beatriz Veloso, com cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado, e as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como rosinhas, ambas de branco, a mulher do dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus rústica… E foi na sala, como se realmente entrasse um&nbsp;príncipe, desses países do Norte onde os&nbsp;príncipes&nbsp;são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram. Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagasse: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla da floresta surge o tigre real. Debalde, nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala, — os seus apertos de mão, e sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer», foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o&nbsp;Príncipe&nbsp;que subira à Serra: e as senhoras mais se conchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura surge o lobo. Eu então, já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.</p><p>— O sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.</p><p>O Digno sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:</p><p>— Vossa Excelência chegou directamente de Viena?</p><p>Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu:</p><p>— Mas certamente visita muitas vezes Viena…</p><p>Jacinto sorria surpreendido:</p><p>— Viena, porquê?… Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.</p><p>O fidalgo murmurou um lento «Ah!» e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.</p><p>Eu então, que vigiava, lancei o dr. Alípio:</p><p>— O nosso doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.</p><p>O doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso — a tia Vicência, que se erguera do sofá, chamava o meu&nbsp;Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa, muito tesa e muito vermelha.</p><p>À mesa (onde os pudins, as travessas de doces de ovos, os antigos vinhos de Madeira e Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes), Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, por costume velho quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha; — e a sopa, que era de galinha com macarrão e arroz, foi comida num tão largo, pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães, à minha mesa:</p><p>— Está deliciosa, esta sopa!</p><p>Jacinto ecoou:</p><p>— Divina!</p><p>Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e o pasmo excessivo de Jacinto, o silêncio, carregado de estranheza, mais se carregou de embaraço. Felizmente, a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar das nossas comidas portuguesas… E eu, sempre no intuito de animar, nem deixei que o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, gritei:</p><p>— Como gosta? Mas é que delira! Pudera! Tanto tempo em Paris, privado!…</p><p>E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado no&nbsp;natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei logo a história, profusamente, exagerando, afirmando que o arroz-doce continha&nbsp;foie gras,&nbsp;e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce, assim estragado, tão longe da serra, não interessava, apenas puxou alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltei para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: — Extraordinário, hem? — D. Teotónio observou, misteriosamente, que «o cozinheiro sabia para quem cozinhava». E a bela mulher do dr. Alípio ousou murmurar, corando:</p><p>— Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!</p><p>Eu então logo (ai de mim, para animar) ataquei com desabrida alegria a sr.ª D. Luísa, por ela assim defender a profanação do nosso grande prato nacional! Mas, ai de mim, tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!, ali na serra era impossível, mesmo a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, então, com aquele seu modo, tão suave, que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do Douro, com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis… O dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!… E em torno destes sáveis, se iam formando, em torno da mesa, entre os cavalheiros mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais — que as senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando até aos frangos guisados. Eu então, receoso que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e alegria, se perpetuasse de novo, lancei-me (para animar) interpelando Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado.</p><p>— Isso foi uma das melhores histórias que nos sucedeu em Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o grão-duque Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o grão-duque… o grão-duque Casimiro, o irmão do Imperador…</p><p>Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: — e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo&nbsp;precipitado&nbsp;ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do grão-duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o grão-duque pescando, o anzol feito com um gancho de princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador… Mas não se produziu um riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de grão-duques e princesas, misturados a coisas picarescas… Nenhum dos meus convidados compreendia o elevador, um prato encalhado num poço negro… Perante o gancho da princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação da tia Vicência:</p><p>— Oh! filho, que coisas!</p><p>Mas como Jacinto se enfronhara de repente numa larga&nbsp;conversa&nbsp;com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora, — todos, logo, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas cavaqueirinhas discretas, a que agora o champanhe, depois do assado, dava mais vivacidade. Era a orla de murmúrios, em torno da mesa, com relevo e sem bulhas, que retomava, se estabelecia. E eu então desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do doutor na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se&nbsp;alargou&nbsp;um silêncio, — e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.</p><p>— Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua&nbsp;e minha senhora, a quem peço para saudar.</p><p>Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos, e logo também de pé, atirando para trás a aba da sobrecasaca:</p><p>— Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal!… Que digo eu? Que pela primeira vez honra com a sua presença a sua pátria! E que por cá fique, pelas serras, muitos anos todos bons. À tua, meu velho!</p><p>Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A tia Vicência tilintou o seu copo, quase vazio, no de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois foi o encadeamento de saúdes, entremisturadas, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras, — quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:</p><p>— Esta é toda particular, e entre nós… Ao ausente!</p><p>Esvaziou o copo, como religião, como pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam, — eu dei o braço à tia Albergaria.</p><p>E só compreendi, na sala, quando o dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de «Dr. Agudo»: — Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!… — E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, — e na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu&nbsp;Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas eleições, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o «Dr. Agudo».</p><p>— Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?</p><p>Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:</p><p>— Até corre, como certo, que o&nbsp;príncipe&nbsp;D. Miguel está com ele em Tormes!</p><p>E como eu os considerava esgazeado, o dr. Alípio, tão agudo, confirmou:</p><p>— É o que corre… Disfarçado em criado!</p><p>Em criado? Oh! Santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. Pois não corria que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?…</p><p>— Disfarçado em lacaio — confirmou logo o digno Rebelo.</p><p>Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:</p><p>— Se assim é, lá me parece desplante… Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida… E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo…</p><p>Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.</p><p>— Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias…</p><p>Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:</p><p>— É segundo o que Vossa Excelência chama&nbsp;boas ideias.</p><p>E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:</p><p>— Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não… Então vamos arranjar duas mesas… O D. Teotónio há-de querer cartas.</p><p>E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calaram, se pareciam encolher ante a aparição do meu&nbsp;Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que tivera um grande prazer naquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes… Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na cidade, em boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara «afrontado», e desejava respirar um bocado na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor, — e mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, mesmo ao baralhar, parara, bufando, como oprimido:</p><p>— Está abafado… Ainda temos trovoada!</p><p>E o dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado.</p><p>— Com efeito, vai cair água.</p><p>A ramagem das mimosas farfalhava arrepiada: e o ar que agitava molemente as cortinas era morno e pesado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.</p><p>Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava… E o dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que, findo aquele roque, se preparasse a jornada. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.</p><p>Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que se familiarizavam, escutando, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher do dr. Alípio perguntava se o roque não findara. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:</p><p>— Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?</p><p>Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu&nbsp;Príncipe:</p><p>— Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas…</p><p>— Sempre o queríamos ver… com esta noite cerrada! Que fosse agora para Tormes.</p><p>O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam as ordens para o pátio negro, onde as traquitanas esperavam atreladas:</p><p>— Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!</p><p>— Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.</p><p>A Vicência, criada, chegava à porta com os braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante, da vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar, se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa meia légua de estrada boa, se não apressava, de novo filado no meu&nbsp;Príncipe, que levava para os lados mais solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia; — e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.</p><p>Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada, — e uma a uma, a traquitana do dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:</p><p>— Pois, primo e amigo, Deus permita que do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!</p><p>Subindo a escada, o meu&nbsp;Príncipe&nbsp;desabafou:</p><p>— Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?… Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?!</p><p>— E tu?</p><p>— Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!</p><p>— Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tu tens o&nbsp;príncipe&nbsp;D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele é? O Baptista!</p><p>— Isso é sublime! — murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.</p><p>Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado:</p><p>— Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto!</p><p>— Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! — exclamei desafogando o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado…</p><p>Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:</p><p>— Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples… Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista.</p><p>Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes… Ela ria! Que coisas! E mau seria…</p><p>— Mas o sr. Jacinto, não é?</p><p>— Eu, minha senhora, sou socialista…</p><p>Acudi, explicando à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:</p><p>— O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai também, e até amigo do duque da Terceira…</p><p>Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra: — e uma bátega de água cantou nos vidros, e pedras da varanda.</p><p>— Santa Bárbara! — gritou a tia Vicência. — Ai aquela pobre gente!… Até estou com cuidado… As Rojões, que vão na vitória!</p><p>E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas no oratório, mesmo antes de ir guardar as pratas, e rezar depois o terço, com a Gertrudes.</p><p><br></p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Fri, 11 Jun 2021 18:50:25 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XIII, de Eça de Queirós</itunes:title>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XIV, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulo XIV, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
XIV
Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo para um grande passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa chá para a botoeira do meu Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
— Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!
E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava aquela manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela, no meu quarto, e lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço rústico, quando ela era apenas uma bela, forte e sã planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia, — e a alma que nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.
A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca, em que era doce, como diz o velho Eurípides ou o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa ou cuidados. A estrada não tinha sombras, mas o sol descia muito de leve, e roçava com uma carícia quase alada. O vale por baixo parecia a Jacinto (que nunca ali passara) uma pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras ligeiras. Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da manhã adorável. E não sei que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele caminho, ao começar o Outono.
— Que delicioso dia! — murmurou Jacinto. — Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do Céu… Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom…
Eu sorri, com certo pensamento:
— Não sei… É talvez já o cheiro do Céu!
Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
— Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal… Hei-de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto de pêssegos. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma coisa de extraceleste. Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.
Ele ria:
— Será explorar de mais a prima Joaninha.
E eu (porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:
Manda-lhe um servo dizendo:
«Bem hajas dona formosa!»
E que lhe entregue um anel
E com um anel uma rosa.
Jacinto riu alegremente:
— Oh! Zé Fernandes, seria excessivo, logo, por causa de meia dúzia de pêssegos, e de um boião de doce.
Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de S…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulo XIV</strong>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">XIV</strong></p><p>Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo para um grande passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa chá para a botoeira do meu Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:</p><p>— Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!</p><p>E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava aquela manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela, no meu quarto, e lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço rústico, quando ela era apenas uma bela, forte e sã planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia, — e a alma que nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.</p><p>A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca, em que era doce, como diz o velho Eurípides ou o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa ou cuidados. A estrada não tinha sombras, mas o sol descia muito de leve, e roçava com uma carícia quase alada. O vale por baixo parecia a Jacinto (que nunca ali passara) uma pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras ligeiras. Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da manhã adorável. E não sei que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele caminho, ao começar o Outono.</p><p>— Que delicioso dia! — murmurou Jacinto. — Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do Céu… Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom…</p><p>Eu sorri, com certo pensamento:</p><p>— Não sei… É talvez já o cheiro do Céu!</p><p>Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:</p><p>— Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal… Hei-de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto de pêssegos. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma coisa de extraceleste. Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.</p><p>Ele ria:</p><p>— Será explorar de mais a prima Joaninha.</p><p>E eu (porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:</p><p>Manda-lhe um servo dizendo:</p><p>«Bem hajas dona formosa!»</p><p>E que lhe entregue um anel</p><p>E com um anel uma rosa.</p><p>Jacinto riu alegremente:</p><p>— Oh! Zé Fernandes, seria excessivo, logo, por causa de meia dúzia de pêssegos, e de um boião de doce.</p><p>Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado:</p><p>— Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois do almoço, vais beber vinho branco?</p><p>— É um costumezinho antigo… Aqui à taverninha do Torto… Um decilitrinho… A almazinha assim mo pede.</p><p>E parámos, eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando na sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.</p><p>— Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.</p><p>Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe também tomou o seu copo, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o seu copo, com delícia, e um estalinho de alto apreço.</p><p>— Delicioso vinho!… Hei-de querer deste vinho em Tormes… É perfeito.</p><p>— Hem? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!… Encha lá outra vez os copos, Torto amigo. Este cavalheiro aqui é o sr. D. Jacinto, o fidalgo de Tormes.</p><p>Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente:</p><p>— Bendito seja o Pai dos Pobres!</p><p>E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra… Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.</p><p>— Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza.</p><p>O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía, cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.</p><p>— A mão!</p><p>E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:</p><p>— Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!</p><p>Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:</p><p>— Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem!</p><p>Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência:</p><p>— Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara?</p><p>O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a procissão dos seus pensamentos:</p><p>— Talvez voltasse, talvez não voltasse… Não se sabe quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa… Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros… Em ruim corpo se esconde bom senhor!</p><p>E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:</p><p>— Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que el-rei D. Sebastião não morreu na batalha?</p><p>O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiança:</p><p>— Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e Vossa Senhoria tem pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o paizinho doente… Mas o mal já vai pela serra abaixo com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!</p><p>Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro, quando o seu brado ardente de novo ressoou, com cava solenidade:</p><p>— Bendito seja o Pai dos Pobres!</p><p>Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino um sebastianista.</p><p>— Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto amigo! Na Serra ou na Cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, porque eu espero uma D. Sebastiana… E tu, felizardo?</p><p>— Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes… Sou o último Jacinto, Jacinto ponto final… Que casa é aquela com os dois torreões?</p><p>— A Flor da Malva.</p><p>Jacinto tirou o relógio:</p><p>— São três horas. Gastámos hora e meia… Mas foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este sítio.</p><p>Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as suas fortes raízes um pequeno esperava segurando um burro pela arreata.</p><p>— Está por aí o Manuel da Porta?</p><p>— Ainda agora subiu pela alameda.</p><p>— Bem, empurra lá o portão.</p><p>E subimos, por uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, donde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o «Tritão», que eu logo sosseguei, reconhecendo o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para segurar os nossos cavalos.</p><p>— Como está o tio Adrião?</p><p>Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:</p><p>— E então Vossa Excelência, bem? A sr.ª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.</p><p>Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado.</p><p>— Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem uma criancinha ao colo… Agora anda na paixão deste Josezinho.</p><p>Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei: — Eh, prima Joaninha!…</p><p>— Talvez esteja lá para baixo, para o tanque…</p><p>Descemos a rua, ladeada de velhas árvores, que a cobriam com as densas ramas cruzadas. Uma fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com uma doçura, toda amarelo e branco, dos malmequeres e botões-de-ouro.</p><p>O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a sr.ª D. Joana seguir para o lado da parreira.</p><p>Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes faias. Gritei: — Eh lá? Vocês viram por aqui a sr.ª D. Joana? — Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.</p><p>— Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.</p><p>— É uma bela quinta — murmurava o meu Príncipe, encantado.</p><p>— Magnífica! E bem tratada… O tio Adrião tem um feitor excelente… Não é lá o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!</p><p>Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe, com os seus talhões debruados de alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um canário.</p><p>— É curioso! — exclamou Jacinto. — Parece o meu Presépio… E as minhas cadeiras.</p><p>E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, pousava um Presépio, semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no sótão, umas armas sob um chapéu de cardeal.</p><p>— Oh senhores! — exclamei. — Não haverá um criado?</p><p>Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas.</p><p>— É o Palácio da Bela no Bosque Adormecida! — murmurava Jacinto, quase indignado. — Dá um berro!</p><p>— Não, caramba! Vou lá dentro!</p><p>Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, — lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis.</p><p>E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em Maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Thu, 01 Jul 2021 11:58:55 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulo XIV, de Eça de Queirós</itunes:title>
      <itunes:author>Neolivros</itunes:author>
      <itunes:subtitle>Capítulo XIV, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
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      <title>"A Cidade e as Serras", Capítulos XV e XVI, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulos XV e XVI (último capítulo), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.

TRANSCRIÇÃO
—
XV
E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. É até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica e pelos pitorescos tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras — eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore e, riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam cada um duzentos mil réis!
Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com folhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas.
Visitara já as suas propriedades de Montemor, da Beira, a Avelã, e consertava, mobilava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade — entreabriu a porta de Tormes à Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida de faias uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e ajoujados de caixotes. Eram os famosos caixotes há um ano encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam trazendo, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: «Mau! o meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados, que continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, que ele imaginara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais caixotes, para instalar um telefone!
— Um telefone, em Tormes, Jacinto?
O meu Príncipe explicou, com humildade:
— Para casa de meu sogro!… Bem vês.
Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os braços, quase suplicante:
— Para casa do médico. Bem. Compreendes…
Era prudente. Mas, uma manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros, trazendo arame, para instalar na nossa casa o telefone. Calmei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros:
— Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro… E, depois, estás tu!
Era fraternal. Mas pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mê…</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulos XV e XVI</strong><span style="color: rgb(54, 54, 54);"> (último capítulo)</span>, em audiolivro, do romance <strong style="color: rgb(54, 54, 54);">“A Cidade e as Serras”</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>“A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro.</p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">TRANSCRIÇÃO</strong></p><p class="ql-align-center"><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">—</strong></p><p class="ql-align-center"><strong>XV</strong></p><p>E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. É até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica e pelos pitorescos tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras — eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore e, riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam cada um duzentos mil réis!</p><p>Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com folhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes&nbsp;disciplinadas.</p><p>Visitara já as suas propriedades de Montemor, da Beira, a Avelã, e consertava, mobilava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu&nbsp;Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade — entreabriu a porta de Tormes à Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida de faias uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e ajoujados de caixotes. Eram os famosos caixotes há um ano&nbsp;encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam trazendo, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: «Mau! o meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados, que continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, que ele imaginara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais caixotes, para instalar um telefone!</p><p>— Um telefone, em Tormes, Jacinto?</p><p>O meu&nbsp;Príncipe&nbsp;explicou, com humildade:</p><p>— Para casa de meu sogro!… Bem vês.</p><p>Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os braços, quase suplicante:</p><p>— Para casa do médico. Bem. Compreendes…</p><p>Era prudente. Mas, uma manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros, trazendo arame, para instalar na nossa casa o telefone. Calmei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros:</p><p>— Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro… E, depois, estás tu!</p><p>Era fraternal. Mas pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina!» Pois não! O Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara um reino novo para desfiar, desceu, silenciosamente, despedido, e não avistámos mais sobre a serra a hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto fora o&nbsp;Príncipe&nbsp;sem&nbsp;Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, — observei ao digno preto, que lia o seu «Figaro», armado de imensos óculos redondos:</p><p>— Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o sr. D. Jacinto está firme.</p><p>O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma&nbsp;túlipa:</p><p>— Sua Excelência brotou!</p><p>Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade, plantado na Serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam.</p><p><br></p><p><br></p><p class="ql-align-center"><strong>XVI</strong></p><p>Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março garantiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva que sentia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu… Parti eu para Paris.</p><p>Logo em&nbsp;Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, — decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:</p><p>— Eh, Fernandes!</p><p>Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina — por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara — o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:</p><p>— E Jacinto?</p><p>Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia às cavaleiras.</p><p>— Ah que canalha! — exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. — É capaz de ser feliz!</p><p>— Espantosamente, loucamente… Qual! Não há advérbios…</p><p>— Indecentemente — murmurou Marizac muito sério. — Que canalha!</p><p>Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a&nbsp;cigarette:</p><p>— Todo esse mundo circula…</p><p>— Madame d’Oriol?</p><p>— Continua.</p><p>— Os Trèves? O Efraim?</p><p>— Continuam, todos três.</p><p>Lançou um gesto lânguido.</p><p>— Em cinco anos, em Paris, tudo continua… As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um bocado mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno… E —&nbsp;et voilà!</p><p>— Dornan?</p><p>— Continua… Não o encontrei mais desde o 202… Mas vejo às vezes o nome dele, no «Boulevard», com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.</p><p>— E o psicólogo?… Ora, como se chamava ele?…</p><p>— Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta… Duquesas em camisa, almas nuas… Coisas que se vendem bem!</p><p>Mas quando eu, encantado, ia indagar de&nbsp;Todelle, do grão-duque, o comboio entrou na estação de Biarritz — e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:</p><p>— Até Paris!… Sempre Rue Cambon!</p><p>Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, com histórias muito sabidas, que murmuravam coisas muito ditas, através de sorrisos muito estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, toda de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem um acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos e finos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um Sol descorado, parecia um vasto manto lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce&nbsp;insipidez.</p><p>Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de grossos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre&nbsp;Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, até a tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu&nbsp;que todos esses cinco anos eu ali estivera à porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da Cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da Legião de Honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas… «Santo Deus!», pensei, «há que anos eu estou em Paris!» Comprei então, num quiosque, um jornal, a «Voz de Paris», para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados — e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o leitor duas tremendas nádegas… Eu murmurei: — Santo Deus! — No Café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a lividez, aconselhou ao meu apetite (comera tão tarde) um linguado frito e uma costeleta.</p><p>— E que vinho, senhor conde?</p><p>— Chablis, senhor duque!</p><p>Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria, — e eu abri, contente, a «Voz de Paris». Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma princesa nua, e um capitão de dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde contavam feitos de&nbsp;cocottes&nbsp;de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram crimes. — Não há nada de novo! — Sacudi a «Voz de Paris», — e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei pelo moço lívido — que, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com uma polidez deliciosa de uma civilização muito espalhada, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de Maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava.</p><p>Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ónibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da&nbsp;tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, decerto, eram os altos prédios hirtos, como as hirtas ribas de pedra e cal, que continham,&nbsp;disciplinavam, a torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam — e mais me cansava o perceber a incessância do trabalho, a rija canseira do lucro, que arfava por trás das fachadas decorosas e mudas. E então enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentava no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como ele no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido num mundo que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard «Ó homens, meus irmãos!», os homens, mais ferozes que o lobo de Agubio ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão, — a do lucro, a do gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra, composto com tolerável nobreza, só restaria esse calhau de Egoísmo, e nele, vivos, os dois apetites de Cidade, — encher a bolsa, saciar a carne! E as mesmas exagerações de Jacinto ante a Natureza me invadiam aplicadas à Cidade. Aquele Boulevard já me ressumava um bafo mortal, exalado dos milhões dos seus micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido trabalhando; todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só por dentro podridão. E considerava de uma melancolia funambulesca cútis e formas de toda aquela Multidão, a sua pressa esperta e vã, a afectação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e arranjadas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, mas assim eu sentia também que necessitava remergulhar na Serra, para que o seu puro ar me secasse e se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernândico!</p><p>Então, para&nbsp;dissipar&nbsp;aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: «Que será feito de Madame Colombe?» E, oh miséria!, pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da Rue&nbsp;Royale&nbsp;para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, o vozeirão, num modo de comando:</p><p>— Eh, Fernandes!</p><p>O grão-duque! O belo grão-duque, de jaquetão alvadio, e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do&nbsp;príncipe, que me reconhecera.</p><p>— E Jacinto? Em Paris?…</p><p>Contei Tormes, a serra, o seu rejuvenescimento entre a Natureza, minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O grão-duque encolheu os ombros, desolado:</p><p>— Oh lá, lá, lá!… Peuh! Casado, na aldeia, com filharada… Homem perdido! Ora, ora!… E um homem útil!, que nos divertia, e com gosto! O cor-de-rosa! uma festa deliciosa… Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris… E então Madame d’Oriol… Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo… Potável, mulher ainda muito potável… Não é o meu género… Adocicada, leitosa, pomadada, neve&nbsp;à la&nbsp;vanille!… Ora esse Jacinto!…</p><p>— E Vossa Alteza, em Paris, com demora?</p><p>O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:</p><p>— Nenhuma. Paris já se não aguenta… Está estragada, positivamente estragada… Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça&nbsp;Gaillon, o Ernest, que era&nbsp;maître-d’hotel&nbsp;do Maire. Já lá comeu? Não? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei… Um horror! Uma salada Chambord… falhada, indecentemente falhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma manada. Mulheres, penh, tudo melado. Não há nada! Ainda assim, num daqueles teatritos de Montmartre, na&nbsp;Roulotte, há uma revista, que se vê: «Para cá as Mulheres» — engraçada, bem despida… A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o «Amor no&nbsp;Water-Closet» que diverte, tem topete… Onde está, Fernandes?</p><p>— No Grand-Hotel, meu senhor.</p><p>— Sofrível barraca… E o seu rei sempre bom?</p><p>Curvei a cabeça:</p><p>— Sua Majestade, sempre bem.</p><p>— Ainda bem, Fernandes, tive prazer… Esse Jacinto é que me desola! Pois vá ver a revista… Boas pernas, a Celestine… E tem graça o tal «Amor no&nbsp;Water-Closet».</p><p>Um rijíssimo aperto de mão, — e Sua Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou… Excelente homem, este grão-duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, pedalando escarranchados sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros esguios, de gâmbias finas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente, no prazer equívoco da carreira escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando: «Se um grego do tempo de Fídias visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!…»</p><p>No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Mas quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que me revivesse a velha camaradagem com o meu&nbsp;Príncipe. Logo na antecâmara, grandes lonas recobriam as tapeçarias heróicas — e a mesma lona parda escondia os estofos das paredes e dos móveis, as largas estantes de ébano na Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num concílio pareciam assim separados do Mundo, por aquele pano que sobre eles descera, depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de ébano, desaparecera aquela matula de instrumentozinhos, de que eu perdera a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezas de metais, numa frieza morta, na inércia definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num museu, para exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antiguidades, e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da Supercivilização, e, como eu, encolhendo desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.</p><p>Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, imóveis, o mesmo pó de arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, na mesma imobilidade de cera! O homem do «Boulevard» passou numa vitória, fixou em mim o binóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame&nbsp;Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros, entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as acácias, espapado em duas cadeiras, o director do «Boulevard»&nbsp;mamava o resto do seu charuto. Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos.</p><p>Abalei para o Grand-Hotel, bocejando, — como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo Parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a faiscar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, entre um áspero e lúgubre farejar de prostitutas, farejando a presa. Em duas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina. Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:</p><p>— Mulheres de Madagáscar… Foram importadas logo que a França ocupou a ilha!</p><p>Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós de arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château Isto, Château Aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre — e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, todo o pessoal da Cidade, recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de&nbsp;Worms&nbsp;e de Doucet, sobre os peitos postiços das Nobres Damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um Censor, de um Catão austero. «Oh senhores!», pensava eu, «pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?»</p><p>Entrara comigo o bolor da velhice? Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e muito larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, sobre as instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, logo o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou — espalhando em redor um olhar frio e sereno, depois remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado — ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte — mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre magras mãos, que se estendiam para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um&nbsp;macfarlane&nbsp;de xadrez, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:</p><p>— Que querem eles? É embirração com o&nbsp;professor…&nbsp;Política?</p><p>O velho abanou a cabeça, espirrando:</p><p>— Não… É sempre assim, agora, em todos os cursos… Não querem ideias… Creio que queriam cançonetas, porcarias. Amor da troça.</p><p>Então, indignado, berrei:</p><p>— Silêncio, brutos!</p><p>E eis que um abortozinho, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me grita:</p><p>— Sale maure!</p><p>Ergui o meu tremendo punho serrano, — e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, — enquanto o furacão de uivos e cacarejos, e guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.</p><p>Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade — e o único dia alegre e divertido que nela passei, foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização, — vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente; bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafos no ventre…</p><p>E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à Cidade:</p><p>— Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio!</p><p>Enfim numa tarde de domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei na plataforma da quieta estação, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava na mão uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador com o cuidado das minhas malas.</p><p>Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano, jaqueta, e polainas altas, de novo me abraçou:</p><p>— E esse Paris?</p><p>— Medonho!</p><p>De novo abri os braços para o bravo Jacintinho.</p><p>— Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?</p><p>— Do castelo! — declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.</p><p>A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara, com ela almoçara, com ela descera de Tormes!</p><p>— Bravo! E, oh prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris… Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?</p><p>— Tudo óptimo! — gritou Jacinto. — A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.</p><p>No pátio debaixo da figueira, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha, para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, ambos levados à rédea por dois criados. E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orléans, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:</p><p>— Deita isso fora!</p><p>E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei. Mas, já ao dobrar para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, que eu esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo de lixo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas&nbsp;belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris.</p><p>Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Janelas distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, dentro do seu cesto, com a haste bem agarrada na mão. Era a&nbsp;bandeira do castelo,&nbsp;afirmava ele muito sério. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da Natureza&nbsp;campestre e mansa, — o meu&nbsp;Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu, — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura!</p><p class="ql-align-center"><br></p><p class="ql-align-center"><strong>FIM</strong></p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Sun, 01 Aug 2021 09:36:52 GMT</pubDate>
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      <itunes:title>"A Cidade e as Serras", Capítulos XV e XVI, de Eça de Queirós</itunes:title>
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      <itunes:subtitle>Capítulos XV e XVI (último capítulo), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós.</itunes:subtitle>
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      <title>"Singularidades de uma Rapariga Loura", Capítulo I, de Eça de Queirós</title>
      <dc:creator>Neolivros</dc:creator>
      <description>Capítulo I, em audiolivro, do conto "Singularidades de uma Rapariga Loura" de Eça de Queirós.
Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros)
O conto "Singularidades de Uma Rapariga Loira", da autoria de Eça de Queirós, foi escrito em 1873 e publicado em 1901 num volume de contos do autor.
O narrador conta-nos a história de Macário, um jovem guarda-livros que conhecera, já “velho de quase sessenta anos”, numa estalagem no Minho, e da sua relação amorosa com a jovem Luísa.
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      <content:encoded><![CDATA[<p><strong style="color: rgb(54, 54, 54);">Capítulo I</strong>, em audiolivro, do conto <strong>"Singularidades de uma Rapariga Loura"</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong style="color: rgb(54, 54, 54);"><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>O conto "Singularidades de Uma Rapariga Loira", da autoria de Eça de Queirós, foi escrito em 1873 e publicado em 1901 num volume de contos do autor.</p><p>O narrador conta-nos a história de Macário, um jovem guarda-livros que conhecera, já “velho de quase sessenta anos”, numa estalagem no Minho, e da sua relação amorosa com a jovem Luísa.</p>]]></content:encoded>
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      <title>"Singularidades de uma Rapariga Loura", Capítulo II, de Eça de Queirós</title>
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      <description>&lt;p&gt;Capítulo II, em audiolivro, do conto "Singularidades de uma Rapariga Loura" de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) O conto "Singularidades de Uma Rapariga Loira", da autoria de Eça de Queirós, foi escrito em 1873 e publicado em 1901 num volume de contos do autor. O narrador conta-nos a história de Macário, um jovem guarda-livros que conhecera, já “velho de quase sessenta anos”, numa estalagem no Minho, e da sua relação amorosa com a jovem Luísa.&lt;/p&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Capítulo II</strong>, em audiolivro, do conto <strong>"Singularidades de uma Rapariga Loura"</strong> de <em>Eça de Queirós</em>.</p><p><em>Apoiem-nos no Patreon (</em><strong><em>https://www.patreon.com/neolivros</em></strong><em>)</em></p><p>O conto "Singularidades de Uma Rapariga Loira", da autoria de Eça de Queirós, foi escrito em 1873 e publicado em 1901 num volume de contos do autor.</p><p>O narrador conta-nos a história de Macário, um jovem guarda-livros que conhecera, já “velho de quase sessenta anos”, numa estalagem no Minho, e da sua relação amorosa com a jovem Luísa.</p>]]></content:encoded>
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      <pubDate>Tue, 15 Aug 2023 17:28:28 GMT</pubDate>
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